ASIAN DUB FOUNDATION

Stage: Matriz Map
29 June, 00:30

Desde que os primeiros hominídeos deixaram as suas savanas de África e se lançaram na descoberta do Mundo que a nossa história é feita de migrações, fluxos e movimentos (por vezes de ida e volta), fazendo de todos nós seres híbridos, cruzados, mestiços e assim mais ricos em ADN e memórias culturais colectivas. Para o bem e para o mal, as migrações – forçadas como no esclavagismo ou no exílio ou na fuga a guerras, fomes e misérias, de outras vezes (embora mais raras) livres, almejadas e felizes – moldaram decisivamente este novo Mundo, global. E a verdade é que todas estas deslocações, individuais ou massivas, tornaram o nosso planeta num lugar em que podemos ter um primo que vive a 11.252 quilómetros de distância (Loulé-Tóquio) ou um vizinho que nasceu a 4.297 quilómetros de onde vivemos (Loulé-Kiev).
Vem isto a propósito dos Asian Dub Foundation – grupo inglês fundado em Londres no ano de 1993 que reuniu, e reúne, músicos na sua maioria provenientes da Índia, Paquistão e Sri-Lanka – e de como um grupo de imigrantes do sub-continente indiano se inscreveu de imediato num movimento maior – o chamado Asian Underground das ilhas britânicas – que cultiva a fusão entre sonoridades dos seus países de origem como o género tradicional bhangra (originário do Panjabe, região transversal à Índia e Paquistão), a música dos filmes de Bollywood – já ela tão misturada, desde há muitas décadas, com ritmos ocidentais – ou a música clássica indiana baseada nas ragas - que foi apresentada aos Beatles e, depois, ao Mundo por Ravi Shankar – com modernos géneros musicais europeus, norte-americanos ou jamaicanos. E, ao lado de nomes como os Fun-da-Mental, Nitin Sawhney, Transglobal Underground, Talvin Singh, Bally Sagoo, Panjabi MC, Cornershop, Apache Indian ou Loop Guru, os Asian Dub Foundation estiveram na linha da frente dessa visibilidade até então nunca vista da música criada por esta minoria migratória vinda do Oriente e que era vista mais como mão-de-obra barata em lojas de esquina (cornershops) ou ao volante de táxis do que como criadores de música e agentes culturais.
Criados por Dr Das (baixo e programações), Pandit G (DJ) e pelo rapper Master D (que entretanto deixou o grupo), aos quais se juntou logo a seguir o guitarrista e programador Chandra Sonic, os Asian Dub Foundation estabeleceram logo desde o início uma sonoridade única e que os destacava dos outros companheiros de movimento pelo eclectismo, abertura e fusão de géneros aparentemente incompatíveis na sua génese. Sim, o bhangra – e o seu instrumentos emblemáticos, o tambor tradicional dhol – está sempre lá, assim como se ouve uma sitar aqui e ali, mas na sua música estão também o hip-hop, o punk, o jungle ou a electrónica mais industrial. E, a juntar a tudo isto, uma forte presença de música jamaicana como o reggae, o dub ou o ragga (e não confundir este com as ragas indianas), sempre presentes mais ainda mais bem representados desde 2005 por um dos seus vocalistas principais, Ghetto Priest… Ou como ainda outra minoria importante de imigrantes no Reino Unido – neste caso, da Jamaica – se cruza, ela também, nesta música e dá ainda mais sentido a esta história.
A comemorar 25 redondos anos de existência, os Asian Dub Foundation cultivam desde sempre uma postura militante, interventiva, activa na denúncia e nas causas (o racismo, a guerra, as minorias e a política de imigração europeia – ouvir, a propósito, "Fortress Europe" -, a violência doméstica – ouvir “"1000 Mirrors", com Sinéad O'Connor…) e, acima de tudo, sempre coerente. Ao longo da sua carreira, lançaram discos históricos como “Facts and Fictions” (1995), “Rafi's Revenge” (nomeado para um Mercury Prize em 1998), “Community Music” (2000), “Enemy of the Enemy” (2003), “Tank” (2005), “Punkara” (2008), “A History of Now” (2011), “The Signal and The Noise” (2013) ou “More Signal More Noise” (2015), estando para breve o lançamento de um novo disco. Autores da música para uma polémica ópera dedicada à história do ditador líbio Muammar al-Gaddafi e para bandas-sonoras alternativas e tocadas ao vivo) de filmes como “O Ódio” (de Mathieu Kassovitz), “A Batalha de Argel” (de Gillo Pontecorvo) ou “THX 1138” (de George Lucas); resistentes ao sistema – Pandit G recusou, em 2002, a medalha da Ordem do Impéri Britânico atribuído pela rainha de Inglaterra -, os Asian Dub Foundation chegam ao Med de Loulé rodeados de uma aura de guerreiros impolutos, incansáveis e incorruptíveis pela liberdade de pensamento e de expressão. É favor recebê-los assim, de volta.









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