IFRIQIYYA ÉLECTRIQUE

Stage: Castelo Map
30 June, 01:00

Tem-se dos desertos a ideia de que são locais desprovidos de vida. Mas isso está muito longe de ser verdade: nos desertos de todo o mundo há muitos milhares de pessoas que lá moram, e tantas outras que por lá viajam, muitas vezes deixando marcas indeléveis das suas culturas, das suas religiões, das suas filosofias de vida, das suas músicas, das suas mercadorias e usos e crenças… O Saara é o maior “deserto quente” do mundo e, ao longo de milhares de anos por ele passaram – ou nele viveram e vivem – muitas pessoas que circulavam entre o seu norte e o seu sul. Os vários grupos berberes – nomeadamente os tuaregues – são povos nómadas que há séculos circulam pelo Saara e, muitas vezes, nele se fixaram. Os gnawas do sul de Marrocos – com a sua música tão característica – são descendentes de escravos negros que foram para lá levados do sul, da zona do antigo império mandinga. E muitos deles fixaram residência em aldeias, vilas e cidades situadas nas margens dos seus (muitas vezes luxuriantes) oásis. Sim, parece mentira mas estima-se que haja entre dois milhões e meio a quatro milhões de pessoas a viver no Saara.
E foi num desses oásis – o Tozeur, situado no extremo sul da Tunísia - que nasceu o inesperado e absolutamente original projecto musical Ifriqiyya Electrique, que junta o casal franco-italiano formado por François M. Cambuzat (guitarra eléctrica e programações electrónicas) e Gianna Greco (baixo), há anos bem conhecido do público português através dos L’Enfance Rouge, a músicos tunisinos da comunidade hausa que vive em Tozeur – os sacerdotes sufi Tarek Sultan, Yahia Chouchen e Youssef Ghazala (nas vozes e percussões tradicionais). Uma comunidade que segue a vaga mais mística e pacífica do islamismo, o sufismo, e cuja música particular – uma música de transe, circular e encantatória – tem inúmeros pontos de ligação à dos gnawas de Marrocos, aos dervixes rodopiantes da Turquia, à música clássica persa ou ao qawaali paquistanês do mestre (já falecido) Nusrat Fateh Ali-Khan e tantos outros.
Em 2017, e através da respeitada editora de world music Glitterbeat Records, os Ifriqiyya Electrique lançaram o seu único álbum até à data, "Rûwâhîne", que tem feito enorme sensação entre os fãs de músicas do mundo em todos os continentes. Juntando a electricidade e a electrónica – devedoras do krautrock, do pós-punk e do rock industrial - dos dois músicos europeus ao trance natural e secular dos músicos tunisinos, o grupo mostra em palco – e no filme-documentário que o acompanha – uma música poderosíssima, única, que muitas vezes conter mesmo o melhor de dois mundos. Os hausa, tal como os gnawas referidos no primeiro parágrafo, são descendentes de escravos negros – e não magrebinos árabes como os seus vizinhos do norte (Marrocos, Argélia, a própria Tunísia…) – levados à força para o lado de lá do Saara há alguns séculos. Da África mais a sul dos seus ancestrais retêm ainda o espírito rítmico original; da sua vivência nas fronteiras do lado norte do deserto aprenderam a adorar Alá (Deus), a venerar Maomé e a celebrar um santo negro, e sufi, Sidi Marzûq. E é na cerimónia anual, o Banga, dedicada a este santo que esta música que vamos ouvir (sem a sua componente ocidental, claro) tem as suas raízes. É uma música de possessão mas também de libertação. E é – apesar da sua aparente estranheza - muito, muito bela.









Organization

Media Partners


Partners