ORELHA NEGRA

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28 June, 01:30

A História do “acto de samplar” na música – que tem pontes estéticas óbvias com as colagens na pintura ou a montagem cinematográfica de Dziga Vertov -- é feita de milhões de histórias – tantos quantos os samples nela usados, principalmente nos últimos 40 anos, via hip-hop e electrónicas --, mas mesmo assim há alguns momentos que é necessário destacar: o pioneirismo de Pierre Schaeffer e Halim El-Dabh, a chegada à pop com “Revolution Nº9” dos Beatles e ao rap com Kool Herc e Afrika Bambaataa – e por aqui nos ficamos em relação a este género se não nunca mais daqui saíamos -, o “My Life in the Bush of the Ghosts”, de Eno e Byrne, o “U2”, dos Negativland, o “Endtroducing” (que não se encaixa apenas no hip-hop e vai muito mais além), de DJ Shadow, o “Play”, de Moby, o “Since I Left You”, dos Avalanches… E, por cá, também houve uma primeira vaga de aventureiros com José Cid (“Sons do Quotidiano”) e a Banda do Casaco com samples da cantora tradicional Ti Xitas.
Há mil maneiras de usar samples – aqueles pedaços de música (vozes, instrumentos…) pré-existentes para os recontextualizar numa nova obra, seja através de uma máquina, o sampler, seja através de um gira-discos que é manipulado pelo DJ – mas um dos exemplos mais criativos dessa arte é um grupo português que se deu a conhecer em 2009 com o single “Lord” e, no ano seguinte com o álbum de estreia, homónimo. Formados por dois mestres da técnica de samplagem – Mira Professional (isto e, Sam The Kid, um dos produtores e compositores mais respeitados do hip-hop nacional) em MPC, sintetizadores e samples de vozes, e Cruz (DJ Cruzfader, idem) nos gira-discos – para além de dois nomes bem conhecidos de projectos revolucionários como os Cool Hipnoise e Spaceboys e os mais recentes Cais do Sodré Funk Connection ou Fogo-Fogo - Rebelo Jazz Bass (Francisco Rebelo) no baixo e na guitarra eléctrica e Gomes Prodigy (João Gomes) nos teclados e sintetizadores – e ainda Ferrano (Fred Ferreira, dos Buraka Som Sistema, OiOai, Banda do Mar ou Os Dias de Raiva) na bateria. Nos seus discos – e à excepção das mixtapes em que surgem vários cantores e MCs nacionais - os Orelha Negra não têm vocalista porque, lá está, as vozes vêm de muitos outros “convidados” para a sua música. Não por acaso, na capa do seu primeiro álbum e nas fotos de promoção dessa altura mostravam os seus corpos encabeçados pelos rostos, em LPs, de Marvin Gaye, Roberto Carlos ou Paulo de Carvalho, lembrando a técnica das colagens em artes plásticas de que a samplagem na música é descendente directa.
Mas não se pense que a música dos Oreha Negra é só um exercício de corta e cola dado por música que já existia antes deles. Longe disso: aos samples (loops, breaks, scratches…) de Sam e Cruzfader junta-se uma banda que vai beber às melhores escolas da soul, do funk, do disco, do jazz, do psicadelismo e do prog-rock, do rhythm’n’blues, do rap, do afrobeat, do gospel, do electro, de géneros brasileiros… e que cria, tudo junto, uma música nova, vibrante, única e originalíssima. Depois de “Orelha Negra” chegou mais um disco com o mesmo nome editado em 2012 e, o ano passado, “Orelha Negra III”. E com dezenas de concertos acumulados em festivais no nosso país e no estrangeiro, os Orelha Negra vêm agora ao Med de Loulé com um espectáculo arrebatador, pulsante de vida, de ideias e de ritmo.









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