SAMPLADÉLICOS

Stage: Matriz Map
28 June, 02:30

Um bombo, uma caixa e alguns adufes dão a base rítmica de algo obviamente português mas dificilmente definível como chula ou malhão ou outra coisa qualquer. Uma marafona beirã dança. E uma flauta de amolador – parente mais que pobre das gaitas galegas das quais herdam as melodias – desenha a canção, depois enfeitada por um cavaquinho e uma viola de arame açoriana. É o “Amolador de Arame”, dos Sampladélicos, e pode dançar-se. Na Mesa de Frades, em Alfama, Celeste Rodrigues – irmã mais nova de Amália e lenda viva do fado – canta o “Milho Verde” enquanto Rui Carvalho– guitarrista alt-folk mais conhecido como Filho da Mãe – cria pontes com os blues da África Ocidental. Uma bateria rock une as duas pontas. É o “Mali do Milho Grosso”, dos Sampladélicos, e pode dançar-se. Numa praia do Algarve, o rapper Reflect deixa escorrer as suas palavras – que devem tanto à escola primordial do hip-hop como aos trava-línguas e aos bailes mandados da sua terra – sobre outros sons captados aqui e ali, Portugal fora. É a “Vila Mal Pintada”, dos Sampladélicos, e pode dançar-se.
Tiago Pereira e Sílvio Rosado são os Sampladélicos. O primeiro, Tiago Pereira, cresceu rodeado de música tradicional e popular portuguesa. Filho de Júlio Pereira – o redescobridor do cavaquinho e outros cordofones tradicionais portugueses, colaborador assíduo de José Afonso… - Tiago cedo se relacionou com uma música que são muitas músicas para, primeiro, as rejeitar e, depois, as absorver como suas, tornando-se desde há muitos anos e ainda agora como o grande guardador de uma memória musical, sonora e visual de todo o nosso país que corre o risco de desaparecer – seja na Mouraria invadida pelo turismo seja em aldeias remotas cada vez mais desertificadas. Herdeiro directo de Michel Giacometti – numa relação que tem tanto de edipiana (“Kill Giacometti”, “Porque Não Sou o Giacometti do Séc. XXI”) como de devoção e culto absoluto (a série “O Povo que Ainda Canta” ), Tiago Pereira assinou em 2010 o documentário “Significado – A Música Portuguesa se Gostasse Dela Própria”, comemorativo dos 15 anos da d’Orfeu, em Águeda, depois de já ter realizado mais alguns que tinham (também) a música tradicional portuguesa como mote e inspiração. E, daí à criação de um canal que reúne recolhas de muitas canções e outras manifestações musicais portuguesas foi um pulo lógico. Chama-se, como todos sabemos, “A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria” e conta hoje com milhares de vídeos no seu acervo. Vencedor do prémio Megafone, Tiago Pereira é também o realizador de “11 Burros Caem no Estômago Vazio”, “Quem Canta Seus Males Espanta”, “Arritmia”, “Sinfonia Imaterial”, “Vamos tocar todos juntos para ouvirmos melhor”, “Não me Importava Morrer se Houvesse Guitarras no Céu” ou “Os Cantadores de Paris”. Fez parte dos OMIRI, ao lado de Vasco Ribeiro Casais.
O seu par nos Sampladélicos, Sílvio Rosado – que orquestra e recontextualiza o que Tiago gravou -, é músico e artista visual. Fez parte de grupos rock como os Flood, Primitive Reason, Luna Sea Sane, Nicorette ou Bordell e trabalha regularmente como compositor e sound-designer de espectáculos de teatro e dança. Juntos desde 2013, os Sampladélicos usam na sua música – e nos seus telediscos e performances ao vivo (onde as projecções vídeo tomam também parte fundamental) – samples sonoros e visuais das recolhas de Tiago Pereira, num processo de corta-e-cola e remistura de diferentes instrumentos, vozes, ambientes… e que resultam num todo orgânico e absolutamente novo. Ou ainda mais novo porque se no trabalho com os OMIRI, as programações e outros efeitos electrónicos serviam de base rítmica a estas tantas músicas unidas numa única música, nos Sampladélicos tudo o que se ouve (e vê) é “a coisa verdadeira” ou, como eles lhes chamam, os seus “beats imperfeitos”. Com um álbum editado, “Não nos Deixeis Cair em Tradição” (2016) e inúmeros espectáculos realizados ao longo destes cinco anos, os Sampladélicos vão de novo mostrar-nos como a sua música – feita de tantas músicas que, na sua origem, não poderiam ser assim imaginadas – pode assim ser dançada. Como uma imensa rave onde rock e acid-house, drum’n’bass e dubstep, hip-hop e trance fossem criados “com as memórias e com sons cem por cento portugueses”.









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