ALDINA DUARTE

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01 Julho, 21:15

Há mais de vinte anos que Aldina Duarte transporta consigo as verdades mais profundas do fado, os ensinamentos mais antigos – mesmo que ditos por ela, agora, com palavras diferentes –, os segredos escondidos nos fados tradicionais. E, ao longo destas duas décadas e picos, raramente Aldina cantou algo que não fosse fado tradicional. Aliás, de todos os grandes fadistas aparecidos nesta chamada “nova geração do fado” – que começa com Mísia, Camané, Paulo Bragança, Mafalda Arnauth, Cristina Branco e continua com Katia Guerreiro, Mariza, Ana Moura, Helder Moutinho, António Zambujo, Carminho, etc, etc… – Aldina é a única que, nos seus discos, sempre fez questão de gravar apenas fados tradicionais. O que não significa – por paradoxal que possa parecer a um olhar menos atento – que seja uma tradicionalista, como se pode confirmar no seu último álbum, “Romance(s)”, em que o segundo disco são releituras alternativas, assinadas por Pedro Gonçalves (dos Dead Combo), dos fados tradicionais que compõem o primeiro disco deste díptico. Mas, antes de mais, o que é isso dos fados tradicionais? Se bem que, em todo o mundo e também em Portugal, se atribua a designação de “tradicional” a canções de autor(es) desconhecido(s), seja na música de matriz rural, aldeã, seja na música urbana, no fado só três “fados” são realmente “tradicionais”: o Menor, o Corrido e o Mouraria, nascidos algures no Séc. XIX, de criação anónima e transmitidos de boca em boca e de geração em geração. Todos os outros – entre 180 a 200 – dos chamados fados tradicionais têm autores conhecidos, mas que assim são chamados pela marca que deixaram no fado e na sua evolução enquanto estilo musical autónomo – à semelhança do que acontece, por exemplo, com os grandes standards do jazz. Alfredo Marceneiro, Joaquim Campos, Armandinho, Fontes Rocha, Júlio Proença ou José António Sabrosa são apenas alguns dos mais importantes compositores de fados tradicionais.

E, aqui no fado, a palavra “compositores” tem uma importância ainda maior porque cada fado tradicional tem uma melodia e/ou harmonia própria mas permite – e esta é uma das maiores riquezas do fado – que se lhe crie por cima uma letra completamente nova, desde que se respeite a métrica e a tónica do desenho musical original. Sim, também há fados-canção, inúmeros novos fados inspirados nos tradicionais mas com músicas diferentes mas, para um fadista, cantar novos poemas sobre a música dos fados tradicionais é, ao mesmo tempo, a maior prova de amor e o maior desafio que pode abraçar. Aldina Duarte – e esta é a sua prova de amor, este é o seu contínuo desafio, este é o seu tributo aos que antes dela se atreveram a cantar este género de música que abarca todos os sentimentos humanos – tem dedicado a sua vida a dar novos sentidos e novas palavras – sejam dela ou de muitos outros poetas – a esses fados antigos, com um sentido de missão permanente e imparável. Fê-lo no seu primeiro álbum, “Apenas o Amor” (2004) – onde oito dos poemas presentes são da sua autoria – e fê-lo nos álbuns seguintes: “Crua” (2006), todo ele com poemas de João Monge, “Mulheres ao Espelho” (2008) e “Contos de Fados” (2011). Fê-lo também no seu mais recente álbum “Romance(s)” (2015), em que Maria do Rosário Pedreira escreve a totalidade dos versos para uma história que conta as paixões, os ciúmes, as mágoas e as comesinhas coisas do dia-a-dia de uma mulher apanhada na teia de um triângulo amoroso – um álbum de fados tradicionais mas que, repete-se, tem o seu contraponto experimental, ousado e completamente original no segundo disco. É este o álbum que Aldina Duarte – lisboeta nascida em 1967; poetisa com dezenas de letras escritas não só para si como também para Mariza, Camané, António Zambujo ou Joana Amendoeira; fadista residente há vinte anos no Sr.Vinho; protagonista de inesquecíveis concertos aquém e além-fronteiras… – mas, como sempre em Aldina, outros tradicionais – talvez aqueles que antes eram cantados por Beatriz da Conceição, Maria José da Guia, Lucília do Carmo ou Hermínia Silva, as suas maiores referências – se ouvirão também.









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