BLICK BASSY

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02 Julho, 21:15

Se o excelentíssimo leitor que está a passar os olhos por estas linhas e, por acaso, não estará a fazê-lo num computador de mesa, num portátil ou num Android mas num iPhone da nova geração, o iPhone 6 da Apple, já deve ter-se cruzado – mesmo que não o saiba – com a música de Blick Bassy. E mesmo que não esteja a usar este gadget, talvez o tenha ouvido também na publicidade televisiva do telemóvel, em que um dos temas – “Kiki” – do seu novo álbum, “Ako”, é usado como banda-sonora. Ironicamente, “Kiki” – cantado em língua basaa, tal como todas as outras canções escritas e interpretadas por Bassy, e uma das mais desconhecidas das mais de duzentas línguas usadas nos Camarões – fala dos conhecimentos ancestrais que são passados de boca em boca e de geração em geração nas aldeias do seu país, em contraste com a velocidade vertiginosa a que as informações podem ser partilhadas ou transmitidas em aparelhos como este. Ou, então, não tão em contraste quanto isso: há alguns anos, em entrevista, o mestre da kora Toumani Diabaté comparava o seu instrumento musical – esta harpa mandinga a que se dá o nome de kora– a um computador moderno, porque este antigo artefacto sonoro transportava, através dos seus tocadores, as histórias, os feitos, a sabedoria de milhares dos seus antepassados, como se fosse um computador – ou uma biblioteca – onde se podia guardar um conhecimento ancestral de uma riqueza incomensurável.

Não se julgue, contudo, que esta ligação de Blick Bassy à multinacional Apple, signifique que este cantor, músico, poeta e activista africano se tenha de alguma forma ao “grande capital”. Pelo contrário, esta foi uma maneira de, numa altura de profunda crise na indústria discográfica, conseguir dinheiro para si próprio e para poder continuar a exercer a sua arte, mas também para o financiamento de vários projectos que mantém no seu país de origem, desde a preservação da língua basaa, que está em riscos de desaparecer, até à construção de estruturas e estúdios de gravação que contribuam para o desenvolvimento do meio musical camaronês. Um meio que, se comparado com muitos outros em África e apesar da sua riqueza e do seu milenário historial, está muito longe de ter o reconhecimento externo que merece. Dos Camarões conhecem-se, cá fora, alguns géneros – makossa, bikutsi, bend-skin… – e alguns artistas – os enormes Manu Dibango, Richard Bona e Étienne M'Bappé, Les Têtes Brûlées, Anne-Marie Nzié, Kristo Numpuby… – e poucos mais. E, desde há alguns anos, Blick Bassy, claro. Nascido na capital do país, Iaundé, em 1974, mudou-se para a aldeia dos seus avós – onde aprendeu a língua basaa – com dez anos. No início dos anos 90 fundou a banda Jazz Crew e, em 1996, os Macase, com os quais grava dois álbuns, “Etam” (1999) e “Doulou” (2003). Dois anos depois da edição deste disco troca os Camarões por França, indo viver para Paris, cidade onde começou a trabalhar com dois dos camaroneses mais proeminentes do mundo musical – Manu Dibango e Étienne M'Bappé (baixista de Joe Zawinul) – e ainda com o maliano Cheick Tidiane Seck e o congolês Lokua Kanza. E, antes, durante e depois das suas experiências no seu país de origem e no seu país de acolhimento, Blick Bassy começou a desenvolver, a solo, uma música que deve tanto ao jazz, à soul, à música brasileira ou até ao flamenco – género que ouvia na rádio emitida a partir da Guiné-Equatorial – como aos géneros tradicionais do seu país, aos blues oeste-africanos (Ali Farka Touré é um dos seus heróis, ao lado do bluesman americano Skip James) ou à rumba congolesa. E, a partir de França – mesmo que agora já não viva em Paris mas numa aldeia próxima de Calais, onde contacta diariamente com a realidade dos refugiados – começou a desenvolver uma música pessoalíssima que teve como frutos os álbuns “Léman” (2009) – em que colaboraram Sekou Kouyaté e Fatoumata Diawara –, "Hongo Calling" (2011) – que parte da sua investigação sobre a viagem dos escravos de África para o Brasil e conta com a participação de Richard Bona e dos brasileiros Lénine e Arthur Maya – e "Ako" (2015), onde se revela de vez um cantautor de primeiríssima água e um músico que se atreve a juntar a sua guitarra eléctrica com instrumentos tradicionais africanos e surpreendentes e belíssimas intervenções de um violoncelo e de um trombone. Respeito.









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