BRANKO

Palco: Matriz Map
01 Julho, 02:15

BRANKO (Portugal)

O kuduro começou por ser um fenómeno unicamente localizado nos bairros pobres – os musseques – de Luanda e nos arredores da capital angolana. Teve pioneiros como Sebem, Tony Amado e, eventualmente, Dog Murras. E continuadores imediatos como DJ Kito da Machina, Pai Diesel, Zoca Zoca, Pinta Tirrú, Puto Português, Gata Agressiva, DJ Znobia, Nacobeta, Come Todas ou Bobani King… E há quem diga – como o enorme Bonga, conhecedor profundo dos géneros mais antigos da música de Angola - que o kuduro não é mais do que uma versão acelerada, moderna, electrónica, sintetizada, de estilos como a rebita, a kazukuta ou a kabetula. E não é difícil – apesar das diferenças de raízes que dão um óbvio sabor local a cada um dos géneros referidos a seguir – que tem parentescos com o kwaito sul-africano, o baile funk carioca, do reggaeton transversal a toda a América Latina de língua espanhola, o zouk das Antilhas (irmão da kizomba, via zouk love, a sua versão mais lenta… kizomba que por sua vez encontra o kuduro nos sub-géneros mais sensuais da tarrachinha e da quadradinha, electrónicos como o kuduro mas mais quentes como a kizomba), o grime das profundezas imigrantes de Londres ou o dancehall da Jamaica.
Mas, a pouco e pouco, o kuduro foi saltando para o mundo quer através de produtores e DJs que o “descobriram” como Frédéric Galliano – que editou em em 2006 a colectânea “Frédéric Galliano Presents Kuduro Sound System”, através da sua editora Frikyiwa – quer através de outros nomes conhecidos da cena da dança alternativa internacional como M.I.A. ou Diplo ou através de excelentes documentários como “Mãe Ju”, de Kiluanje Liberdade e Inês Gonçalves, “Kuduro – Fogo no Musseque”, de Jorge António, ou até “É Dreda Ser Angolano”, de Pedro Coquenão (agora mais conhecido sob a designação Batida), que apesar de se debruçar mais sobre a cena hip-hop angolana, também dava conta do fenómeno e mostrava outro dos seus nomes maiores: o grupo Os Turbantes. Por outra via, o grupo de hip-hop franco-cabo-verdiano de enorme sucesso em França La MC Malcriado e em especial um dos seus integrantes começaram a misturá-lo com o funaná, criando assim o “kunaná”.
Por cá, o kuduro começou por ser visto mais como um fenómeno fugaz e até um motivo de troça: na longa lista de aberrações convidadas para os seus programas televisivos - o Vítor Peter, a Pomba Gira, a Natália de Andrade, o Professor Alexandrino... -, Herman José incluiu há no início deste século o duo de kuduro Salsicha & Vaca Louca, ridicularizando os seus “ritmos selvagens” e os seus “requebros opulentos”. Mas a vingança chegaria a seguir. Quando os Buraka Som Sistema lançaram o seu primeiro EP, homónimo, que apesar de ser um EP e não um álbum tinha oito temas, percebeu-se imediatamente que o kuduro – nas mãos deles coberto por um som mais elegante e uma patine mais progressiva - era algo para levar a sério. E começou-se a olhar para o kuduro original, angolano, com outros olhos, reavaliando-o. E o resto da história é conhecido: discos cada vez mais bem recebidos e um reconhecimento global que transformou os Buraka Som Sistema - uma mistura de portugueses, angolanos e indo-moçambicanos e um espelho perfeito do caldo de culturas em que Lisboa se transformou nas últimas décadas) - e ao lado de Mariza (uma fadista nascida em Moçambique) nos maiores embaixadores da música... portuguesa.
Como é sabido, muitos outros grupos influenciados pelo kuduro surgiram em Portugal – com relevo para Batida, Octa Push e Throes + The Shine, que também estão presentes no cartaz desta edição do Med de Loulé. Mas à sua cabeça – também porque foram os seus iniciadores por cá, mas não só – estão os Buraka Som Sistema, que entraram de férias por tempo ilimitado e que tiveram em Branko uma das suas figuras de proa (ao lado de Riot, Conductor, Kalaf e Blaya). Os Buraka Som Sistema – recorde-se para quem é mais esquecido – tiveram um sucesso esmagador em todo o mundo com alguns dos seus temas mais emblemáticos ("Sound of Kuduro", "Kalemba (Wegue Wegue)" ou "Hangover (BaBaBa), participaram em inúmeros dos mais prestigiados festivais de world music, hip-hop e electrónicas, ganharam vários prémios de prestígio e colaboraram com alguns dos maiores nomes da nova música electrónica global como M.I.A., Diplo, DJ Znobia ou Deize Tigrona.
De entre os seus membros, Branko foi sempre um dos mais activos exploradores de outras sonoridades, quer integrado nos Buraka, quer a solo. De seu nome de baptismo João Barbosa, Branko também actua enquanto DJ e produtor sob os pseudónimos Lil’ John e J-Wow. E ao amor pelo kuduro junta a sua pesquisa e admiração – que usa nos seus trabalhos a solo, quer ao vivo quer em disco, como se pode comprovar ouvindo o seu já histórico EP "Going in Hard" (2012), o mini-álbum “Drums Slums Hums” (2013) ou o aventuroso álbum “Atlas” (2015) - por outros géneros como o Miami Bass, o baile carioca, o afro-house, o rap, o drum’n’bass, o kwaito da África do Sul (e alguns dos seus actuais derivados). Em “Atlas”, o álbum gravado em cinco diferentes cidades do mundo que vem mostrar ao Med de Loulé, Branko mostra caminhos paralelos à do seu grupo anterior (BSS), mas também bastantes desvios aventureiros. E com ele, nesta aventura, estiveram Mayra Andrade (que canta no mesmo dia em que ele actua no Med de Loulé), MC Bin Laden, Skip & Die, Cachupa Psicadélica (também persente nesta edição do nosso festival) ou Alex Rita.









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