DONA ONETE

Palco: Cerca Map
30 Junho, 21:15

Em todo o mundo há mulheres que transportam consigo a memória, a prática e as tradições mais antigas dos seus povos e das suas culturas, dos seus países e das suas músicas. Mulheres que são ao mesmo tempo receptáculos de saberes ancestrais e transmissoras de conhecimentos valiosos que, sem a sua perseverança, vontade e sentido de missão provavelmente se perderiam na voragem dos tempos. Mulheres como, em Portugal, as fadistas Maria da Fé, Argentina Santos ou a recentemente falecida Beatriz da Conceição, que não se cansam ou cansaram de ensinar aos cantores mais novos os segredos das tradições fadistas – ou, na Beira Alta, Isabel Silvestre, que guarda e transmite os ensinamentos de uma música antiga e belíssima. Mulheres como Celina Pereira, guardiã de uma sabedoria centenária, na música, na poesia, nas lendas e nos contos cabo-verdianos. Mulheres como Susana Baca, que a partir de Lima, no Peru, perpetua – na sua música e no seu Instituto Negro Continuo – perpetua o legado da cultura africana na América Latina, preservando, entre outros géneros, o lundum, género musical centenário que estará na base do fado e de muitas músicas brasileiras, latino-americanas e cabo-verdianas. São mulheres que são ao mesmo tempo discípulas e mestras, correntes de transmissão cujo exemplo tem um valor absolutamente incalculável. Este intróito, já longo, serve também para apresentar a senhora que sobe neste dia ao Palco da Cerca no Med de Loulé: Dona Onete. Cantora, poetisa, compositora, professora, portadora de uma herança cultural riquíssima do norte do Brasil.

Dona Onete – de seu verdadeiro nome Ionete da Silveira Gama – nasceu em 1938, no município de Cachoeira do Arari, localizado no Estado do Pará. E, ao longo da sua já longa vida de 78 anos, tornou-se uma verdadeira embaixadora itinerante da cultura da sua região, divulgando um género musical geralmente pouco conhecido, o carimbó, e um novo estilo que ela própria inventou, o carimbó chamegado, como tão bem se pode ouvir no seu primeiro e único álbum editado, “Feitiço Caboclo” (2013). Mulhere dedicada ao ensino, à cultura e à música, Dona Onete viveu em Belém – capital do Pará – e, ainda neste estado, em Igarapé-Miri. Foi professora de Estudos Paraenses, Secretária da Cultura do Município de Igarapé-Miri, criadora de grupos folclóricos e troupes carnavalescas, activista política e, ainda antes disto tudo, já começava a chamar a atenção com a sua voz. Numa das primeiras entrevistas que lhe fizeram quando lançou esse seu único álbum, conta-se que “quando era menina, Ionete da Silveira Gama atraía tantos botos [Nota: uma espécie de golfinho que habita no Amazonas] ao cantar na beira do rio que sua tia vivia chamando benzedeiras com medo do animal, que, segundo a lenda, se transformava em homem para seduzir as moças”. Lenda, ou não, a verdade é que não agora não são os botos, mas as pessoas, que se deixam seduzir – quais marinheiros atraídos pela voz sensual, misteriosa e incisiva das sereias – pela música de Dona Onete. Uma música que, explica ela, é feita de uma mistura muito própria de lunduns – e não falámos nós há pouco de lunduns, a propósito de Susana Baca? –, banguês, boleros e carimbós. Uma música que traz muitas vezes um travo picante, dengoso e de um erotismo telúrico e primevo. Autora de mais de trezentas canções, estrela maior das festas dos 400 anos da cidade de Belém do Pará (em Janeiro deste ano), Dona Onete prepara agora o lançamento de um segundo álbum e de um documentário sobre a sua vida, carreira e missão.









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