MARTA REN & THE GROOVELVETS

Palco: Castelo Map
29 Junho, 23:00

MARTA REN (Portugal)

Quando, no início deste Século XXI, se assistia a um concerto dos portuenses Sloppy Joe – uma enorme banda que tinha tudo no lugar certo, da secção rítmica à guitarra e ao órgão e à secção de metais -, o que mais atraía no meio daquela chinfrineira boa de ska, reggae, dub, pop colorida, laivos de rock, algo de afrobeat e uma paixão secreta por Manu Chao era a figura gaiata, pequenina, saltitona – e apesar disso já nessa altura absolutamente avassaladora em palco – de Marta Ren. Mas, mais, muito mais ainda, do que a sua figura era a sua voz. Uma voz inacreditavelmente potente, maleável, com um grão negro do mais negro que há, que dela saía, como se alguma vez fosse possível um poder vocal assim sair dum “altifalante” tão pequenino e, a coroar tudo isto, como se alguma vez (bis) fosse possível haver uma voz tão negra numa branca tão branquelas quanto ela (OK, houve Janis Joplin e já antes dela Marion Harris, houve Amy Winehouse e há Adele…), mas, por cá? Sim, há Petra Pais, dos Nobody’s Bizness e dos Hearts & Bones, mas a Petra tem metade de sangue negro (do lado do pai) embora tenha a pele mais branca que a cal.
Dos Sloppy Joe ficou-nos essencialmente o álbum “Flic Flac Circus” (2003), uma imensa saudade e a vontade de continuarmos a manter contacto com a voz de Marta Ren. E essa vontade foi-nos sendo sempre saciada. Ao longo dos anos que se seguiram ao final da banda, a cantora deu voz a bandas como os Bombazines – projecto que juntava soul, funk, psicadelismo e shoegaze de Manchester e com quem gravou um EP homónimo em 2009 – ou os Movimento – em que partilhava a ribalta com Miguel Ângelo, Gomo e a cantora moçambicana Selma Uamusse (uma das vencedoras do Med de Loulé do ano passado) -, com quem gravaria um álbum, também com o nome da banda, em 2011, dedicado a um cancioneiro diferente do nela habitual: os grandes clássicos portugueses dos anos 60 e 70 como “Perto”, dos Sheiks, ou “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, em ambiente soul. E, em anos mais recentes, nos Funkalicious, onde cantava standards do cancioneiro negro norte-americano de gente como Aretha Franklin ou James Brown.

Pelo meio Marta Ren deliciou-nos com participações em temas de grandes nomes do hip-hop, do rock, do reggae ou da música electrónica portuguesa: Mão Morta, Trabalhadores do Comércio e Blind Zero, Sam The Kid, Dealema, New Max, NBC, Expeão, Link, Prince Wadada ou Nu Soul Family. E ainda a sua experiência com a banda italiana, de Turim, The Soulful Orchestra com quem gravou o tema “Well I Done Got Over It” (2015) e, quinda mais recentemente, a sua parceria com David Fonseca – o tema “Fame” – no álbum de homenagem a David Bowie, “Bowie 70”. Mas faltavam as cerejas no topo do bolo: temas originais para cantar com uma banda que lhe servisse à medida da voz, do talento, do fogo de palco (e, já agora, de estúdio).
E as cerejas foram chegando, acompanhada pela sua actual banda, The Groovelvets: os clássicos soul instantâneos, de sabor tão retro quanto actual, incluídos no single “2 Kinds Of Men “/“Summer´s Gone (Didn´t Swim)“ (2013), a sua continuação lógica no single “I´m Not Your Regular Woman / Be My Fela” (2015) e o aguardadíssimo álbum de estreia “Stop, Look, Listen” (2016). Um já apreciável e significativo lote de canções – com letras assinadas por ela e música, produção e muito do resto a New Max (Expensive Soul - que vêm (re)confirmar a voz de Marta Ren como uma das melhores de sempre da música portuguesa, seja ela qual for. Para ouvir, dançar, gritar em coro… E tentar, de novo, imaginar como é possível aquela garota, agora mulher, conseguir chegar tão longe e fazer sair “de dentro dela” (como diria Jô Soares) uma voz, queimada a raios UV, que pesa mais uma tonelada do que o seu corpo.









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