NIYAZ

Palco: Matriz Map
01 Julho, 22:15

NIYAZ (Irão, Estados Unidos)

Houve um tempo – antes da revolução de 1979, liderada pelo aiatolá Khomeini, quando se instituiu a xária que, entre muitas outras coisas, proíbe as práticas musicais públicas, com raras excepções, e a interditou completamente às mulheres – em que cantoras iranianas (ou, se se preferir a designação, persas) vendiam centenas de milhares de discos, faziam digressões intermináveis no seu próprio país e no estrangeiro. Exemplo maior disso é a cantora e actriz Googoosh, diva da música persa – embora numa perspectiva mais pop e menos clássica e/ou tradicional como o género musical persa maior e mais antigo, o radif. Entretanto, e quase quarenta anos passados sobre a revolução, os tempos foram evoluindo e, na actualidade, já é possível ouvir na rádio música clássica iraniana e até alguma música clássica ocidental e alguma pop iraniana; já há também alguns espectáculos musicais públicos – embora sujeitos a autorização e censura prévia (mas apenas de homens, nunca de mulheres). Mas, por exemplo, a televisão estatal está proibida de mostrar instrumentos musicas e a repressão sobre os músicos e cantores de géneros considerados diabólicos ou anti-Islão como o metal, o grunge ou o rap – como se pode ver no documentário “Gatos Persas” (“No One Knows About Persian Cats”, de 2009) – continua.
É por isso que cantoras iranianas como a espantosa Sussan Deyhim (no lado de uma música experimental), mais recentemente a jovem Tara Tiba (no lado da tradição) - a mesma cuja voz acompanha brilhantemente num tema a guitarra portuguesa de Marta Pereira da Costa -, a própria e já referida Googoosh e Rita Yahan-Farouz (ambas do lado da música pop), a rapper Ghogha ou Azam Ali – a vocalista dos Niyaz, grupo de que aqui em baixo se falará mais neste texto – tiveram que abandonar o seu país para poder continuar a cantar livremente e ter a actividade profissional na música que sonhavam.
Os Niyaz – formados agora pelo casal de iranianos, radicados no Canadá, Azam Ali (voz e dulcimer percutido) e Loga Ramin Torkian (guitarviol – uma guitarra eléctrica tocada com arco -, e os instrumentos tradicionais tar e saz), acompanhados pelo percussionista, também iraniano, Habib Meftah Bouchehri – vêm ao Med de Loulé mostrar a sua mágica fusão de radif tradicional e de outros géneros do Médio Oriente interpretados em instrumentos tradicionais com electrónicas e rock, uma fusão que está bem expressa nos seus concertos e nos seus álbuns e um EP editados até agora: “Niyaz” (2005), “Nine Heavens” (2008), “Sumud” (2012) “Sumud (Acoustic EP)” (2013) e o mais recente “The Fourth Light” (2015), que vêm apresntar no nosso festival e é uma homenagem à santa e grande poetisa sufi Rabia Al Basri, que viveu no Séc. VIII.
Foi em 2004 que os Niyaz nasceram, pelas mãos de Azam Ali - que tinha pertencido aos Vas, banda que partilhava ao lado do percussionista norte-americano Greg Ellis e que praticava uma música semelhante à dos Dead Can Dance -, Loga Ramin Torkian – ex-Axiom of Choice, banda de músicos iranianos radicados na Califórnia que praticava já uma música semelhante à dos Niyaz – e o produtor, DJ e programador norte-americano Carmen (sim, também pode ser nome masculino) Rizzo – que viria a abandonar o grupo em 2013 depois de ter participado criativamente nos seus três primeiros álbuns e que antes, durante e depois trabalhou com gente como Seal, Coldplay, Alanis Morissette, Ryuichi Sakamoto, Khaled ou A.R. Rahman. E na sua música, que rapidamente começou a conquistar os principais circuitos da world music, juntam-se a poesia mística e clássica dos sufis (para além de Rabia Al Basri, também com o enorme poeta Rumi, do Séc. XIII, em destaque) com as músicas tradicionais persas, como o radif, mas também géneros da Turquia, Palestina ou Paquistão. E sem esquecer, nunca, um elegante e hipnótico transe que já pré-existe nessas músicas antigas mas que neles é reforçado pelas electrónicas. É belíssima música de êxtase, de reflexão, de contemplação, aquela que vamos poder ouvir sábado, dia 1 de Julho, no Med de Loulé.









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